As influências no cinema de Beleza Americana

Revista de Cinefilia e Crítica do Instituto Federal Câmpus Cidade de Goiás

As influências no cinema de Beleza Americana

O filme “American Beauty” do diretor Sam Mendes e roteiro de Alan Ball, é um longa-metragem estadunidense de 1999 que tem como personagem Principal Lester Burnhan (Kevin Spacey) que é Casado com  Carolyn (Annette Bening), e entra em uma crise de meia idade após se apaixonar por Angela (Mena Suviri) uma amiga de sua filha Jane (Thora Birch). O filme tece em sua narrativa uma critica ao estilo de vida tradicional e ao sonho americano de comerciais de refrigerante de uma vida economicamente estável, família e casa em uma boa vizinhança, com a evolução do enredo onde o autor questiona, desconstrói, e escancara os problemas desta classe da sociedade americana onde os personagens estão inseridos.

 Analisando o cinema como a arte que é, e levando em consideração a máxima de Abelardo Barbosa (Chacrinha) de que nada se cria tudo se copia, no premiado  “Beleza Americana” não foi diferente. Encontramos no filme algumas claras influências de alguns movimentos cinematográficos ocorridos durante a história do cinema, os quais descreverei neste texto.

A influência do Surrealismo que buscava explorar de maneira onírica o subconsciente aparece por diversas vezes durante a trama além do uso de símbolos e metáforas, típico do movimento, para expressar algo sobre os personagens. Lester Burnhan (Kevin Spacey) tem vários sonhos e pensamentos que trazem à tona o desejo dele pela amiga de sua filha, a personagem Angela. Em todos estes sonhos e pensamentos aparecem em cena um elemento em comum, que permeia toda a narrativa e se destaca em várias outras sequências importantes da história. A rosa vermelha que simboliza a beleza, ganha destaque em diversos contextos e com vários significados durante o filme: nos sonhos e pensamentos de Lester envolvendo Angela a flor aparece em pétalas quase sempre censurando o corpo dela, reforçando o fascínio pela beleza da moça. Em outras cenas, como por exemplo, a apresentação da personagem Carolyn, esposa de Lester, na abertura do filme onde ela colhe as rosas para enfeitar os diversos vasos de sua casa, a flor aparece como metáfora à beleza artificial da família tradicional, que aparentemente é bonita e feliz, mas na verdade é uma estrutura morta, cheia de problemas.  

Outra influência notada no filme é a da Nouvelle Vague com seus temas imorais e personagens anti-heróis, com narrativas que faziam com que o público se apaixonasse pelo bandido, pelo moralmente considerado mal. Em “Beleza Americana” o personagem principal, em sua evolução, faz o caminho inverso aos valores morais tradicionais da sociedade. No inicio da narrativa ele é apresentado como um homem comum da classe média, com emprego, esposa, filha, carros e casa, porém em uma crise de meia idade, totalmente infeliz, e odiado por sua família. No segundo bloco do filme, o personagem pede demissão de seu emprego e chantageia seus chefes, volta a usar drogas, e se apaixona pela amiga de sua filha, que tem menos de o dobro de sua idade. Durante a evolução deste personagem no sentido contrário ao comum, o personagem vai se sentindo cada vez melhor, e o publico vai se envolvendo cada vez mais com ele, chegando a se comover com o seu  final trágico já anunciado no inicio do filme.

O uso de trilha sonora pop como componente da narrativa, comum dos filmes da Nova Hollywood, também é utilizado pelos realizadores desta obra para ilustrar o retorno de Lester a sua natureza jovem, e enquanto ele corre, fuma maconha, ou faz exercícios em sua garagem escutamos musicas de artistas como Bob Dylan, Bill Withers, The Who, The Gues Who. As musicas que acompanham o desenvolvimento do personagem são dos anos 70, auge da nova Hollywood, e juventude do personagem Lester, que durante sua evolução no filme tenta retomar este estilo de vida.

Destaca-se também nesta obra a influência do Expressionismo alemão, com o uso de luzes, sombras, figurino e maquiagem para expressar o estado emocional dos personagens. Jane tem um ar obscuro, reflexo de seu ambiente familiar, o que se projeta em seu figurino “largado”, com várias peças pretas, maquiagem e batom  sempre escuros. Seu namorado Rick também projeta em seu figurino e comportamento reservado o reflexo de seu lar autoritário: nota-se o grande uso das cores escuras na construção da paleta de cores deste personagem, que raramente aparece feliz na trama.

O filme de Sam Mendes  tem como questão central a critica à falsa moral da sociedade norte-americana. A obra aborda uma temática parecida com a dos diretores do Neorrealismo italiano que nos anos 60 teceram em seus filmes várias críticas à burguesia, e ao estado Italiano. Seu desfecho é surpreendente e trágico, como a maioria dos desfechos de personagens anti-heróis, ou dos que tentam se levantar contra modelo tradicional de vida moralista burguês, assim como nos filmes da escola italiana. O diretor soube mesclar muito bem as influências nesta obra, e Beleza Americana faturou em 2000 seis estatuetas do Oscar, entrando para a história do cinema mundial.

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