Relatos Selvagens e suas influências

Revista de Cinefilia e Crítica do Instituto Federal Câmpus Cidade de Goiás

Relatos Selvagens e suas influências

Relatos selvagens (no original Relatos salvajes) é uma produção argentina de 2014 com roteiro e direção de Damián Szifron. Tem estrutura bem singular, sendo formada por episódio ou capítulos que não se relacionam, a não ser pela temática. Foi indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro em 2015 e indicado ao Palma de Ouro, tendo ganhando diversos outros prêmios.

A obra apresenta uma série de referências cinematográficas. Em primeiro lugar cabe ressaltar uma influência básica, que remete aos primórdios da história do cinema. Se trata de Georges Méliès, cineasta e ilusionista francês a quem se atribui o primeiro uso de efeitos especiais no cinema. Por ser mágico, Méliés buscou transpor para o novo campo que surgia na virada no século XX, sua paixão pelo ilusionismo.

Em sua época os recursos eram limitados, contudo Méliès conseguiu criar uma nova estética e abriu portas para o cinema de fantasia. Mostrar o que a imaginação inventar, sem limitações. Com o avanço da tecnologia o recurso ficou cada vez mais refinado, influenciando praticamente todas as produções que preveem um orçamento considerável (o artifício se popularizou, mas barreiras monetárias permanecem). Não é diferente em Relatos selvagens que tem o uso de efeitos especiais em cenas como a do avião que cai no primeiro capítulo e em algumas explosões. 

Outra influência que podemos apontar se encontra no filme A primeira noite de um homem (título original The graduate), 1967, 106min, em que o diretor Mike Nichols utiliza uma trilha sonora com arsenal de músicas pop. Além disso, a música também é utilizada como recurso para evitar diálogos e promover uma elipse temporal com cortes em transição. Ambos, assim como no primeiro caso, foram amplamente popularizados. No filme de Damián Szifron percebemos a trilha sonora com músicas conhecida em vários momentos, mas destacamos o último episódio, do casamento, em que podemos ouvir a música Titanium de David Guetta com participação da cantora Sia. Além disso, no capítulo do atentado à empresa de guinchos ligada à prefeitura, vê-se uma elipse de tempo através de uma música quando o personagem vai implantar explosivos em seu carro.

Na cena da elipse temporal podemos destacar ainda uma influência expressionista no filme que, apesar de não se representar nos figurinos, cenários ou luzes, se manifesta na junção entre música, movimento de câmera, montagem e atuação para destacar a confusão do personagem durante aquele momento, expressar seu interior. Dá-se a sensação que Simón Fisher não tem controle de seus atos e, assim como as imagens, não se dá conta da passagem do tempo.

Em relação à estética, no segundo episódio (assassinato no restaurante) percebemos uma influência de Pedro Almodóvar, que inclusive é citado nos créditos como um dos produtores do filme. Almodóvar é conhecido por sua estética kitsch e utilização de cores fortes, principalmente vermelho, que nos países latinos se relaciona com paixão, ódio, violência. 

 

 

 

 

Na cena de Relatos selvagens em questão, nota-se o padrão do vermelho no cenário do bar fixo ao fundo e em elementos como o cardápio na mão das personagens e no sangue ao final.

 

 

 

Nesta cena final, cabe ressaltar a influência de Quentin Tarantino. O diretor é amplamente conhecido por tratar da violência em seus filmes, principalmente o que tange imagens sangrentas e chocantes.

                       

Para Arturo Serrano a violência nos filmes de Tarantino se mostra por vezes de forma acidental, como é o caso em Relatos selvagens. A personagem

cozinheira decide matar o cliente por envenenamento, mas quando o plano foge ao controle acaba esfaqueando-o, provocando um banho de sangue.

 

Alfred Hitchcock é também um grande cineasta, famoso por tratar a violência em seus filmes. Contudo, ela não costuma estar no centro do palco, como se vê em Psicose. Ela é evitada, com cortes rápidos e imagem preto e branco. Para Hitchcock o que importa está antes: o suspense. Suas sequências são construídas com poucos diálogos, as vezes “emudecidos” pela música, para que a imagem possa per si construir a tensão.

Em Relatos selvagens, no terceiro episódio (“incidente na estrada”) tem-se, em nossa opinião, as cenas de maior suspense em todo o filme. Em geral, as estórias começam tranquilas e caminham para um desfecho trágico. Entretanto, aqui o suspense e angústia se misturam entre as imagens, músicas de suspense e ego das personagens que fazem de um incidente cotidiano um crime passional. A percepção de Damián Szifron de que amor e ódio são faces da mesma moeda contribui para o desenvolvimento da tensão, fazendo nos perguntar o quão longe eles vão.

Em último lugar podemos apontar influências do cineasta americano Martin Scorsese. Ainda segundo Serrano, é uma marca do diretor o uso de situações reais e plausíveis com o desejo de fazer seu cinema um assunto ético e não estético. Estes são traços proeminentes em Relatos selvagens destacando-se no penúltimo episódio. Uma família rica paga para um caseiro assumir a culpa de um acidente cometido pelo filho, mas que ao final é morto e o dinheiro se divide entre o advogado e promotor. A violência não é explicita como em outros momentos do filme, antes sucumbindo-se ao seu caráter ético.

Ainda é possível apontar em todos episódios as situações corriqueiras que irrompem a violência: o ato de pegar um avião; estar atendendo mesas em seu trabalho; uma briga de trânsito; “ser sacaneado” pela burocracia, etc. Desse modo, percebemos que mesmo não sendo uma referência direta, uma homenagem ou uma paródia em que traços de linguagem ou de estilo seriam facilmente identificáveis, a linguagem cinematográfica evolui de modo a absorver elementos anteriores que se fundem a cada nova estética formando incontáveis singularidades. Relatos selvagens se mostrou um filme amplo, cooptando inúmeras alusões distintas para tratar da violência de diferentes maneiras.

 

 

BLOG COMMENTS POWERED BY DISQUS