O Outro Lado do Vento

Revista de Cinefilia e Crítica do Instituto Federal Câmpus Cidade de Goiás

O Outro Lado do Vento

“O Outro Lado do Vento” é um filme da Nova Hollywood realizado por uma dos maiores expoentes da “velha”. Filmado por Orson Welles em 1976, o filme ficou perdido em uma série de batalhas judiciais e brigas por direitos sendo lançado apenas agora. É um privilégio que tenhamos uma obra inédita de um dos maiores diretores da história do cinema para poder assistir. Mas é também uma pena. “O Outro Lado do Vento” é moderno, atual e mais enérgico do que qualquer lançamento que está nos cinemas. Se causa impacto hoje, imagine 40 anos atrás.

Welles fez uma obra revolucionária que infelizmente chegou ao público tarde demais para revolucionar. Em uma era de “Atividade Paranormal” e afins, o estilo do found footage (imagens de diferentes câmeras montadas como arquivos encontrados) não é mais novidade, mas o diretor fez isso muito antes de “A Bruxa de Blair”. O interesse de Welles em brincar com a mistura realidade e ficção já estava presente em sua versão de rádio de A Guerra dos Mundos, e no cinema vai desde o cinejornal no início de Cidadão Kane até a reviravolta genial de "Verdades e Mentiras"- até então seu ultimo filme. Mas se o estilo de diferentes imagens “encontradas” não é mais novidade, é possível afirmar que Orson Welles realizou o melhor found footage já feito.

Aqui ele mistura documentário, realidade e metalinguagem para contar os últimos momentos de um diretor de cinema da velha guarda financiado por um jovem pupilo. Relembrando o período do filme e os atores envolvidos na representação, fica óbvio que a história não é apenas de certa forma auto referencial sobre o diretor, mas um registro de uma momento de troca de bastão no cinema hollywoodiano. A Nova Hollywood foi o momento em que, devido à mudança geracional e a popularização da televisão, o cinema entrou em crise. Hollywood, perdida, deu chance e liberdade a uma nova geração de realizadores ao mesmo tempo em que dispensava a antiga. Welles, que sempre sofreu nas mãos dos estúdios e foi abandonado por eles muito antes de seus colegas, cria um alter ego interpretado por John Huston (diretor de uma Hollywood clássica, definidor do cinema noir e cameraman na II Guerra Mundial). O pupilo e nova estrela que eclipsa o mestre é feito por Peter Bogdanovich, ele mesmo um diretor estrela da Nova Hollywood naquele momento, um cinéfilo que deu casa e sustentou Orson Welles no fim da vida.

Esta mistura de real e ficcional, documental e encenação fazem de “O Outro Lado do Vento” um filme poderoso, em que Welles presta tributo não apenas a si mesmo (o diretor encarnado por Huston parece ser uma mistura do próprio Huston com Welles e John Ford), mas àqueles que vieram depois dele. Se “Cidadão Kane” é uma antologia da história do cinema até então, o último filme de Orson é uma antologia dessa história depois de Kane.

Está lá a brincadeira com a realidade documental que o próprio diretor fez em “Verdades e Mentira”, e estão lá também os cortes rápidos, alternâncias de tempo e espaço e metalinguagem explícita da Nouvelle Vague (o nome Godard chega a ser citado em uma piada que não é terminada). O filme tem um pouco de 8 e ½ de Fellini, das experimentações de Andy Wahol, alguma crueza do neorrealismo e a revolução de costumes da própria Nova Hollywood. E há ainda o filme dentro filme, uma espécie de brincadeira com o cinema europeu de Bergman e Antonioni.

Prova que Welles estava se reinventando constantemente, compreendendo como pouquíssimos o cinema enquanto uma linguagem em atualização e olhando sempre à frente sobre os limites da representação. É de se imaginar o que ele faria hoje com câmeras digitais, celulares, imax e 3D. O diretor que usava tudo o que tinha à disposição para contar uma história ao mesmo tempo em que te ensinava um pouco mais sobre a natureza humana apresenta, em pleno 2018, um filme que não apenas faz jus ao seu legado, mas consegue a proeza de leva-lo ainda além.

“O Outro lado do Vento” não é apenas uma curiosidade cinéfila, um filme-lenda perdido de uma dos grandes nomes da sétima arte. É uma grande obra, ousada, inovadora e um retrato de um momento-chave de transição cultural, social e política. Um filme atual. Uma elegia ao cinema de um artista maior .

 

BLOG COMMENTS POWERED BY DISQUS