Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças

Revista de Cinefilia e Crítica do Instituto Federal Câmpus Cidade de Goiás

Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças

Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças é um filme estadunidense de 2004 estrelado por Kate Winslet e Jim Carriey, onde interpretam personagens bem diferentes das quais já haviam interpretado no cinema até então. O filme foi roteirizado por Charles Kaufman, conhecido por histórias que trabalham bastante com metalinguagem e surrealismo, e neste filme não é diferente.

O filme conta de forma não-linear a história de Joel, um adulto jovem, tímido e antissocial que descobre que sua namorada Clementine, uma jovem adulta, extrovertida e impulsiva, fez um tratamento no qual ela o apagou completamente de sua memória. Profundamente chateado, ele resolve fazer o mesmo. Contudo, durante o processo, ele se arrepende e vai fazer de tudo para conseguir mantê-la em suas memórias.

O filme trabalha com uma montagem paralela, onde Joel está na cama de sua casa sendo monitorado pelos assistentes técnicos responsáveis por manter o tratamento de apagar as lembranças em pleno funcionamento, enquanto Joel vagueia pelos campos de sua memória, não só interagindo com elas, mas com o que acontece em sua volta no mundo real através do som. Boa parte dos diálogos entre os técnicos são percebido por Joel dentro de sua mente (e para complicar ainda mais, um deles, Patrick, se envolve com Clementine), que não só revive as suas memórias como tem autonomia para fazer as coisas diferentes nela. E no meio do processo ele se arrepende amargamente de ter desejado excluir Clementine, e então parte por uma jornada onde tenta sabotar o processo levando-a para outros cantos de sua memória. E, a princípio, o plano dá certo.

A montagem paralela no filme funciona como um bom mecanismo para apresentar a forma como a história dos personagens secundários e principais se entrelaça narrativamente, onde o arco dramático de um influencia diretamente no arco dramático do outro. Se não houvesse a briga do casal principal, não seriamos apresentados ao tratamento de Howard; Se Patrick não houvesse se envolvido com Clementine, Joel não teria desencadeado o sentimento de ciúme e muito provavelmente não teria tentado sabotar o tratamento, e assim por diante.

No caso, filme sabe dosar o tempo de cena para cada personagem, ligando por: cortes alternados entre eles; falas de alguns personagens secundários que sobrepõem cenas do casal principal; trilha que transita entre as cenas e interações do personagem principal que ligam os dois universos (mental e real), como o ato de abrir o olho. Com essa dinâmica, a narrativa dá o tempo necessário para o arco de todos os personagens se desenvolverem sem se distanciar da trama principal.

O tempo do filme é frenético e às vezes confuso, onde muita coisa acontece ao mesmo tempo seguindo a lógica de uma mente, desesperada e às vezes nostálgica, onde os pensamentos oscilam constantemente. E dessa forma a história segue uma “linha não-linear” aprofundando-se na atmosfera da organização do pensamento de Joel, mostrando uma mente que se processa de forma cruzada e fora de cronologia.

Esta cronologia, inclusive, é fundamental para criar estranhamentos propositais, além acompanhar os motivos que o levaram personagem Joel a se apaixonar por Clementine. Também é responsável por dar maior grau de importância para o relacionamento dos dois.

Brilho Eterno de Uma Mente Sem lembranças se utiliza bastante de cortes secos, os quais muitas vezes são realizados sem raccord perfeito, ou seja, com boa quantidade jumpcuts. Os erros de continuidade muitas vezes são propositais, criando uma atmosfera estranha da mente humana. E existem momentos onde até as sequências possuem erros de continuidade, causando um maior estranhamento visual, como o momento onde Joel não sabe mais para onde Clementine segue, se é pra direita ou se é para esquerda. Todos os efeitos no filme estão para causar estranhamento no espectador.

Visualmente, a obra busca criar um clima nostálgico por meio da suave textura de câmera analógica e lentes com aberrações cromáticas. As cores predominantemente azuis causam um ar de melancolia e a câmera na mão cria em certos momento uma sensação de filme caseiro, assim como em outros momentos uma instabilidade psicológica.

O filme também trabalha com o recurso de sombras potencializando o tom dramático e também utiliza-se de fotografia estouras criando uma sensação de amadorismo que contribui para o estilo da narrativa. Há certos momentos onde se utilizam lanternas como iluminação causando claustrofobia nos momentos de tensão.

A trilha sonora é melancólica, potencializando o drama vivido pelos personagens e às vezes cartunesca, principalmente nos momentos de tensão e confusão visual. O trabalho de arte apresenta, como já dito, uma paleta azulada, mas há alguns elementos que se destacam, como a roupa laranja contrastando com o resto do ambiente. O quarto de Joel revela a sua personalidade artística e melancólica através de quadros, cores das roupas de cama e sua desorganização.

Com o apoio de efeitos especiais, a arte aumenta o potencial narrativo do filme, como nos momentos em que o protagonista passa por um ambiente já deletado e o rosto dos personagens não existem mais (e também o momento na biblioteca onde Joel e Clementine possuem um diálogo doce, enquanto a capa de cada livro da biblioteca some).

A cena do lago congelado é um bom elemento visual que traduz um dos principais sentidos do filme: casal no canto da tela próximo de uma rachadura do gelo, porém com rostos felizes, como se os problemas passasse bem por perto deles e mesmo assim eles o encarassem com certa inocência, porém juntos e com complacência. Brilho Eterno de uma mente sem Lembranças é um drama romântico sobre a importância da memória em nosso processo de humanização. É também um filme que fala sobre nossas relações e como devemos nos aceitar para coexistirmos.

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