Aniquilação: luto, memória e ficção científica

Revista de Cinefilia e Crítica do Instituto Federal Câmpus Cidade de Goiás

Aniquilação: luto, memória e ficção científica

Aniquilação: luto, memória e ficção científica Um meteoro atinge um farol. A imagem, logo no início de “Aniquilação”, é ao mesmo tempo bela e assustadora: revela uma potência de destruição iminente, mas de forma tão simetricamente organizada no quadro que parece calma, esperada, natural. O fim. A destruição. A morte. Uma tragédia que se abate de repente sobre uma pessoa querida é como um meteoro, uma força da natureza e do acaso que surge de repente e destrói aquilo que nos era tão importante, aquilo que era nosso farol.

“Aniquilação” é um filme sobre o luto, e a destruição do farol é uma bela analogia com a situação de Lena (Natalie Portman), bióloga que não quer lidar com a possibilidade de morte de seu marido, desaparecido um ano antes sem maiores explicações: a destruição repentina do farol de sua vida. Ao mesmo tempo a morte nada mais é do que nossa maior certeza, o final esperado. Esta noção do “inevitável” está presente por todo o filme através da direção segura de Alex Garland , que enquadra seus personagens e seu universo de forma tão bem organizada que mesmo nas situações mais improváveis há uma ideia de ordem, de algo esperado. Um ciclo natural da existência.

Com ecos de “Stalker” (o cinema de Tarkovski e seu apreço pela dilatação do tempo já estavam presentes no trabalho anterior do diretor, “Ex-Machina”), “Aniquilação” acompanha um grupo de mulheres cientistas que adentram O Brilho, um local misterioso do qual apenas uma única pessoa retornou. O fenômeno que parece refratar tempo e espaço possui origem alienígena: o meteoro não destruiu, afinal, o farol, ele criou algo mais a partir do choque.

O luto é resultado desta destruição que não destrói totalmente. A morte vem como o acontecimento máximo que interrompe, que se choca, quebra... e cria algo novo. O farol existe e ao mesmo tempo não existe, pois se torna algo mais. O ente querido se vai, mas permanece na memória, como dor, que se multiplica como as células cancerígenas que se seguem à abertura do filme. Não por acaso “Aniquilação” se constrói por uma teia de lembranças de Lena em uma memória articulada a partir da dor, da morte e da culpa, narrando e lembrando enquanto tenta se fazer outra, renascida, que merge do luto para uma nova vida.

A apresentação da personagem é exemplar na maneira com a câmera de Garland diz muito a partir de sua geometria cuidadosa. O tom de mistério no interrogatório da única sobrevivente da expedição ao Brilho é intensificado pela forma que os enquadramentos “prendem” Lena ao mesmo tempo em que a revelam como só e fora de lugar.

 

 

Primeiramente a apresenta sozinha sentada em uma sala. Lena em seguida é revelada de perfil sendo observada por várias pessoas. A importância dela e sua situação de aprisionamento é mostrada na forma como três homens vestidos de branco a cercam dentro do quadro. Por fim, um plano mais próximo a revela entre duas linhas da parede, reforçando sua situação de imobilidade dentro da situação.

A personagem aparece várias vezes “cercada” de alguma forma, um aprisionamento que seu arco dramático irá tentar superar ao longo do filme até chegar ao extremo de que é preciso um novo eu para superar o luto e a multiplicação incessante da dor.

Quando começa a pintar as paredes escuras com tinta branca, Lena parece aceitar a morte do marido desaparecido: deixar o passado para trás, substituir antigas memórias pelo novo. Mas o quadro é ordenado de forma a mantê-la presa: o próprio filme nos dando a dica de que ela na verdade não superou aquela dor, que continua presa ao seu passado. São vários quadrados dentro quadro, cercando e espremendo Lena. Uma luz artificial antecipa o Brilho que refrata e potencializa tudo que o envolve.

E quando o marido finalmente retorna, logo em seguida a este plano, ele é a própria encarnação do luto: vestido de preto, ele parece atraído pela luz artificial que vem de cima em contraposição à luz natural das janelas à esquerda. Bem ao seu lado direito a representação tradicional do passado ao qual nos apegamos: as fotografias. Este homem será o arauto da jornada de Lena, o símbolo da morte que sobrevive pelas memórias e literalmente se eleva para alcançar a esposa que tentava superar sua perda.

Seu retorno vai trazer mais dor e irá levar Lena ao Brilho onde ela mergulhará em um mundo de beleza e pesadelos. Presa nesta ambivalência entre as bonitas lembranças de uma vida que, exatamente por isso, provocam o horror do que não existe mais, ela segue firme em direção ao farol. Uma cena chama a atenção nesta jornada. Como se saída de um portal lovecraftiano, uma criatura monstruosamente deformada replica ao abrir a boca o último som de desespero de uma de suas vítimas. A repetição infinita do grito de socorro da cientista que as outras não puderam salvar não apenas reforça a culpa das personagens ( e a de Lena em relação ao casamento), mas se torna a concretização de como essa culpa pode ser perigosa.

“Aniquilação” caminha para um clímax difícil, um “quero-ser-2001” que esbarra naquela que talvez seja a única insegurança narrativa de sua história: explicar ou não explicar? O filme parece não se decidir ao final até onde pode confiar em seu espectador, apresentando falas, situações, gravações de vídeo e duplos que ficam no meio do caminho entre a didática do enredo e a abertura total para interpretações. Tanto a escolha pela explicação literal do que ocorre ou a escolha pelo radicalismo de não oferecer quase nada ao público poderiam funcionar. Mas a dúvida de que lado seguir tira um pouco da força e do impacto que todo o filme parecia vir tentando construir.

O Brilho é atrativo, e é perigoso por isso mesmo. “Aniquilação” discute luto, depressão e memória a partir de uma ficção científica com toques de terror e existencialismo para nos mostrar que olhar para o passado pode ser hipnotizante. Mas que podemos nos perder nas memórias em um mundo de dor e é preciso nos refazermos para escapar do ciclo vicioso. Ou não. Talvez não haja escapatória para o luto, e por mais que tentemos reencontrar nosso farol seremos sempre duplicatas sombrias do que algum dia já fomos.

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