Notes on blindness (2016) - por Cris Ventura

Revista de Cinefilia e Crítica do Instituto Federal Câmpus Cidade de Goiás

Notes on blindness (2016) - por Cris Ventura

Após ter aceitado o convite do colega Renné França, estou aqui me aventurando na escrita crítica de diretor estreante, assim como eu, estreante na crítica. Foi difícil a escolha, pensei em selecionar algum primeiro filme de diretores que gosto, mas por fim optei por um filme mais recente, e que me sensibilizasse em  diferentes dimensões, seja técnica, simbólica, ideológica. O filme escolhido surge no contexto de minha investigação em realidade virtual, nessa busca encontrei Notes on blindness: into darkness, um projeto imersivo de realidade virtual (VR) baseado na experiência psicológica e sensorial de cegueira de John M. Hull. Lançados no Festival de Sundance, de 2016, a instalação em VR e o longa metragem Notes on blindness, são resultado de um trabalho de seis anos dos diretores Peter e James, que tiveram como inspiração inicial o livro Touching the Rock de John M. Hull. Os diretores acessaram o diário (gravado em fitas-cassete), e daí surge o projeto composto por uma série de curtas, entre ele Rainfall, premiado no festival Hot Docs em 2013.

Notes on blindness é classificado como documentário; trata-se de um trabalho híbrido que se envereda nos campos da memória, da ficção, da poesia e do ensaio. Nele, conhecemos a história do teólogo e professor John M. Hull (1935-2015), que, após anos de uma doença progressiva e dias antes de seu filho nascer, fica completamente cego. John, nesse processo de perda de visão, inicia um diário em áudio, em 1983, descrevendo e refletindo sobre as mudanças ocasionadas pela cegueira.

 

 

 

 

 

 

 

                                          

O documentário me trouxe uma série de lembranças pessoais em torno das gravações caseiras com fitas-cassete; recordei das brincadeiras de gravar áudios, fazer “programas de rádio” e entrevistas com amigos. Havia um brinquedo que era o desejo de muitas crianças do final dos anos 80, começo dos anos 90. Nunca cheguei a ter esse sonhado brinquedo, mas gravava fitas em aparelhos de som ou em walkmans.

Figura 3: Gravador gradiente

O documentário utiliza as gravações originais, em que a própria voz de John M. Hull recria as sensações, experiências e memórias descritas nos áudios, que são sincronizados aos lábios dos atores que interpretam os papéis da família de John. Dessa forma, vemos uma confluência entre o factual e ficcional: tanto inscrito pela voz do teólogo como pela atuação ficcional dos atores, associados a um tratamento sensório-poético, por meio de sons e imagens que traduzem as sensações, angústias, sonhos e medos vividos no processo de se tornar cego. Os áudios e as imagens ao longo do filme geram uma empatia a respeito da condição física do protagonista. O trabalho de captação de áudio é muito sensível e permite ao público escutar os detalhes de toque de dedos em diferentes materiais (para quem não viu, recomendo usar um bom fone quando for assistir). Escutamos sons de portas se abrindo, passos, a mão que desliza na mesa tocando em aparelhos, livros, luminária, ampliando os timbres de cada matéria: madeira, metal, plástico, papel. Mesmo com o breve toque nesses objetos, escutamos na perspectiva de alguém que passa a se guiar pelo som. Assim, adentramos na perspectiva  de John a respeito da escuta. Há alguns planos subjetivos que simulam a experiência da perda da visão, como imagens desfocadas, borradas, a câmera percorrendo espaços do mundo doméstico, tentando, com dificuldade, focar em detalhes.

Uma das primeiras dificuldades encontradas por John, enquanto professor universitário, seria a continuidade de seu trabalho: como faria suas leituras, pesquisas e aulas sem suas anotações? John organiza uma equipe para ler e gravar as leituras de livros que lhes eram necessários. Se adapta às novas formas de se locomover, passa a reconhecer seus alunos por suas vozes. Nessa fase, John ainda conseguia perceber alguns lampejos, percebia a luz entrando pela janela, o lustre aceso em cima da mesa. Estava se adaptando essa nova realidade,  narra que estava indo muito bem nesse processo até que os lampejos desaparecem. Nesse momento, a tela fica escura e não escutamos nada. A partir daí, a narrativa fílmica revela as angústias de John, que encontra dificuldades em protagonizar sua condição. Esse acontecimento coincide com o nascimento de seu filho. Eventos familiares são registrados em som pelo pai cego, como o batizado de seu filho, festas natalinas, momentos domésticos com sua família. As memórias passam a ser fixadas não mais pelas imagens e sim pelo som, já que as fotografias não dariam suporte ao gesto reminiscente. Em determinado momento, John sente a necessidade de pensar sobre a cegueira, visto que sua memória pelas imagens havia se esvaído, e, daí, inicia a suas “notas sobre a cegueira”, em 21 de junho de 1983.

Em suas primeiras notas sobre a cegueira, John tenta descrever o processo da perda  de sua memória visual, as fotos na galeria da sua mente se ofuscaram. O filme empreende de modo poético demonstrar esse processo de John. Imagens de arquivo se desintegrando, perdendo-se em sua materialidade, imagens ruidosas e desgastadas figuram a angústia de não se lembrar mais facilmente de como sua esposa era; então, analisa como as fotografias cumprem essa insuficiência da memória: “notei que memórias de fotos eram recuperadas com mais facilidade”. Neste momento, são inseridas fotos com  pequenos movimentos - um garoto na praia, e o mar se movimenta; uma mulher imóvel sob a neve e os flocos caindo; um trem fixo e a paisagem ao fundo se movimentando (trazendo vida às imagens) - além de um background sonoro que também as anima. Esta parte do filme se contamina com campo da arte e me lembrou da obra  Frutos estranhos (2006), da artista brasileira Rosângela Rennó, em que as imagens estáticas ganham movimentos quase imperceptíveis, deslocando o nosso modo de olhar pelo fato de não ser uma imagem fixa nem móvel, mas que compreende o movimento num recorte estático.

Notes on blindness tem um belo trabalho de arte, fotografia e iluminação, há planos que nos remetem às pinturas de Hopper (Figura 1), expressando de forma sensível os momentos de solitude, seja em ambientes domésticos, seja em ambientes externos. Há uma boa reconstrução de época, os figurinos com suas cores estampas, a decoração da casa e móveis nos conduzem a uma viagem nostálgica aos anos  de 1980. Existem belos planos que mostram a relação do “personagem” com a natureza: árvores, rochas, chuvas, matas, mar, neve etc. Esses elementos da natureza atuam de modo sensório junto ao “protagonista” e ao público; nas imagens, vemos John sentindo-se afetado pelo calor, pela luz, pelos sons e frescor da água, pela ausência e escassez que o frio traz, como a cena em que caminha pela neve e se sente no nada, no vazio.

O filme recria em imagens alguns sonhos narrados por John em suas fitas, como a sequência em que ele sonha que se vê como uma criança num carrinho de carvão, indo pro fundo de uma mina escura, revelando sua psique abalada pela incapacidade, expressando sua angústia pela aceitação da cegueira. Também, na sequência em que John cego está no supermercado, empurrando um carrinho de compras com seu filho dentro, e sente uma água escorrendo pelo chão, o gotejar da água, sua esposa e sua filha o observando, após isso surge uma corrente de água invadindo os corredores dos frios, assim como aquela famosa cena do sangue jorrando pelos corredores do hotel  em “O iluminado”. A água invade todo o espaço do mercado. John narra o pesadelo das mercadorias e dos corpos flutuando nessa inundação. Os sonhos na narrativa fílmica e na psique de John figuram as manifestações de seus medos, inseguranças, impotência diante da impossibilidade de voltar a enxergar, de não estar no controle e ter que aceitar essa situação. A água é o elemento que dissolve, mas que também restitui a vida, enquanto imagem simbólica pode representar os sentimentos profundos e pesados do sonhador. Bachelard, em A água e os sonhos: ensaio sobre a imaginação da matéria, ao tratar do Complexo de Caronte e de Ofélia, afirma que “a água é um movimento novo que nos convida à viagem jamais feita”; tais imagens oníricas nos revelam assim uma infelicidade através de  “ofelização” do seu entorno, onde tudo parece estar à deriva, flutuando em uma desordem.


O documentário, em sua estrutura narrativa, gera um efeito ficcionalizante (além da encenação dos áudios), mostra o desenrolar desse doloroso e sofrido processo do teólogo. Numa espécie de segundo ato do filme, vemos uma série de sequências que abordam a conscientização de John e sua família em torno da cegueira, como a sequência em que realiza indagações sobre o processo  biofísico da perda da visão; o que aconteceria ao cérebro quando a estimulação óptica cessa? E reflete: “o novo sentimento que estou descrevendo é uma sensação de fome, de aridez. Um sentimento que seu cérebro anseia por estimulação óptica, como o corpo anseia por fome. O próprio cérebro tem sede daquilo a que está acostumado. Parte do meu cérebro está morrendo.” Para uma pessoa que enxergou a vida toda, que vive numa sociedade em que supervaloriza as imagens, o visual, a aparência, e, de repente fica sem ver, deve ser um processo perturbador. Os diários  sonoros de John também nos revelam como seus filhos lidavam com a recente cegueira do pai, que o questionaram se voltaria a enxergar. Num momento, sua filha indaga: “papai, se eu chorasse e minhas lágrimas caíssem em seus olhos você poderia enxergar novamente?”. John comenta que tal fala da filha se relaciona com a história da Rapunzel, que realiza tal ato e seu amado volta a enxergar. O fantástico ou milagroso poderia curar os olhos do pai.

 


Após algumas sequências que retratam o processo de aceitação de sua condição, vemos uma bela sequência que mostra um momento epifânico do teólogo. Nela, vemos John  caminhando para a porta de sua casa, lá fora está chovendo e, ao abrir, escutamos o som da chuva se avolumando, e ouvimos narração sobre esse momento: “Uma nota sobre a experiência de ouvir a chuva caindo. Essa tarde, eu saí pela porta da frente da casa e estava chovendo. Fiquei parado por alguns minutos, perdido na beleza daquilo. A chuva traz todos os contornos do que está ao seu redor à medida que introduz um cobertor de som diferenciado e espacializado que preenche todo o ambiente sonoro”. São inseridas imagens e sons das gotas tocando o telhado, o carro, o chão asfaltado; as folhas das árvores caindo numa poça d'água... de repente, a chuva invade a casa de John. O trabalho de som nos coloca novamente na perspectiva do cego, escutamos as reverberações de cada matéria e como elas estão distribuídas espacialmente. Chove em sua poltrona, em sua pia, em sua mesa, em seu gravador. Em meio a essa enxurrada sensorial, John reflete: “Se ao menos existisse algo equivalente à chuva caindo dentro, então toda a sala tomaria forma e dimensão. Ao invés de estar isolado de fora, internamente preocupado… você é introduzido a um mundo. Você está relacionado a um mundo. Você está destinado por um mundo. Por que essa experiência deveria impressionar alguém como sendo bela? A compreensão é bela. É lindo saber.”. A partir desta sequência, percebemos como o John se transforma e passa ter uma postura mais ativa. A narrativa prossegue revelando seu progresso, como nas cenas em que seu novo filho nasce, e ele descreve como gosta de senti-lo no colo, sentir o calor de sua cabeça; como em outra cena em que leva o filho do meio para escola e ao se despedir, gosta de escutar o  som do bye, ecoando enquanto a criança se afasta. John comenta que gosta de momentos como estes, e que aprendeu a conviver com a cegueira, em que, sendo negado o estímulo do mundo exterior, ele encontra recursos interiores. Narra também que passa a ter novas ideias e novos horizontes, lembra-se mais, sente-se mais conectado, faz mais links em sua mente, sente-se mais esclarecido, mais animado. Há um esvaziamento da consciência, uma renovação: “é preciso recriar a própria vida”. John reflete sobre seu processo de amadurecimento com sua condição de cego, largando a nostalgia das imagens. Nesse instante, as imagens da natureza desfocada desaparecem, vemos só a escuridão e os sons da natureza.

Notes on blindness trabalha a relação do som com o espiritual, sendo o som vibração, algo que não se vê, mas que se ouve (considerado o sentido mais elevado por nomes como Santo Agostinho, por exemplo) e se sente, sentimos o som reverberar em nosso corpo e nos materiais, mas não podemos tocá-lo. José Miguel Wisnik, em O som e o sentido comenta: “O som tem um poder mediador, hermético: é o elo comunicante do mundo material com o mundo espiritual e invisível. O seu valor de uso mágico reside exatamente nisso: os sons organizados nos informam sobre a estrutura oculta da matéria no que ela tem de animado. (Não há como negar que há nisso um modo de conhecimento e de sondagem de camadas sutis da realidade)” . O filme tenta demonstrar essa relação em uma das cenas finais em que vemos John caminhando por uma igreja. Ele direciona o rosto para alto,  “observando” as abóbadas da igreja, sentindo a reverberação do som do órgão sendo tocado. John toca no banco de madeira da igreja e sente o pulsar da música nesta matéria. John parece extasiado com essa experiência.

Em nosso imaginário, habita uma certa relação entre a cegueira e a vidência, o saber. Sendo os cegos aqueles que não enxergam no plano físico, “profano”, terreno, mas que enxergam o plano espiritual o que está além, e que possuem um conhecimento, uma “visão” mais ampla. Em muitas histórias e mitos encontramos personagens que personificam essa imagem arquetípica do cego profeta, sábio, conselheiro, como o personagem Tirésias. Em Notes on blindness percebemos que essa relação entre cegueira e sabedoria se faz presente, mas além desta há a ideia da cegueira como castigo divino. John narra, quase no final do filme, que acredita que a cegueira foi um presente dado por Deus. Em outro trecho, do que acredita ser um castigo pela sua falta de fé, mas que recebe a cegueira como um presente dado por Deus, mesmo não sabendo o que Ele quer com isso.

Referências:

http://www.notesonblindness.co.uk/

https://www.birminghammail.co.uk/whats-on/film-news/notes-blindness-touching-story-blind-11515493

BACHELARD, Gaston. A água e os sonhos: Ensaio sobre a imaginação da matéria. Trad. Antônio de Pádua Danesi. São Paulo: Martin Fontes, 1989.

SANT‟ANNA. Affonso Romano de. A Cegueira e o Saber. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 2006

WISNIK, José Miguel. O som e o sentido. Uma outra história das músicas. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

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