O enigma de Kaspar Hauser - Por Silvana Beline

Revista de Cinefilia e Crítica do Instituto Federal Câmpus Cidade de Goiás

O enigma de Kaspar Hauser - Por Silvana Beline

Título: O enigma de Kaspar Hauser
Duração: 1h 50min
Direção: Werner Herzog
Elenco: Bruno S., Walter Ladengast, Brigitte Mira
Gêneros fílmicos: Drama
Técnica: Live Action
Ano de lançamento: 1974
Nacionalidade: Alemanha Ocidental
Texto de: Silvana Beline

O Enigma de Kaspar Hauser é um filme que estabelece seu ritmo a partir uma progressão narrativa onde se percebe evolução da ação e dos personagens numa clara ascensão da tensão dramática. Pode-se perceber que o filme é construído com partes e subpartes delimitadas a partir de critérios lógico-narrativos com encadeamentos temporais, manifestações dialogadas assim como também critérios dramáticos percebidos na evolução da história, da tensão dramática e das viradas.

O referido filme, dirigido por Werner Herzog em 1974 narra a história de um jovem que, desde o seu nascimento, foi mantido em um porão, sendo alimentado com pão e água e privado do convívio social, até ser libertado e encontrado em uma praça de Nuremberg. Kaspar Houser trazia consigo um bilhete de origem anônima dirigido ao capitão de cavalaria da cidade, onde foi contada sua breve história. Entendido como uma aberração passa a ser espetáculo de circo juntamente com outras pessoas consideradas estranhas por serem diferentes. Após ser acolhido por um professor que passou a dedicar ao seu processo educativo, Kaspar Hauser tem a oportunidade de aprender a falar, a andar, a tocar piano dentre outras atividades o que o levou a questionar a ordem social estabelecida. Despertado para o mundo, acabou angustiado com aprendizado complexo.

Importante aqui lembrar que organização social é diferente entre humanos e animais. Se comparar-se as sociedades animais não-humanas constata-se que o comportamento apresenta certas padronizações parecidas com algumas das humanas.

Entende-se padrões de comportamento como formas regulares de ação associadas a determinadas situações. Assim, todas as espécies têm padrões de comportamento. Mas as dos animais são diferentes dos humanos obviamente levando-se a perceber que a estabilidade nos padrões de comportamento de formigas ou abelhas são igual em qualquer lugar ou tempo a partir da herança biológica.

Mas os padrões dos humanos tem flexibilidade, são mutáveis no tempo e no espaço. Características como grau de complexidade e especialização neurocerebral; visão policrônica; mão preênsil; coluna vertebral conjugada a localização central do orifício ocipital, que dá aos indivíduos capacidade de andar ereto; são condições necessárias, mas não suficientes para o desenvolvimento do homem se associar, pois não basta para que desenvolva a sua sociabilidade. Sem elas o homem não se torna social, mas elas sozinhas não bastam.

Um organismo normal é condição necessária ao desenvolvimento da sociabilidade do homem, mas sem esta condição a aprendizagem através da comunicação simbólica não atua ou se processa de modo deficiente.

Lembrando que um organismo normal não basta para que o homem se torne social, pois adquire as características comportamentais conhecidas como tipicamente humanas através da socialização. Kaspar Hauser nos ensina que não saímos do útero materno completamente humanos e o grupo social que nos rodeia tem muitos mecanismos para nos transformar em membros da sociedade a partir de processo de aquisição de conhecimentos, padrões, valores e símbolos, além de aquisições de maneiras de agir, pensar, sentir, próprias do grupo em que o individuo vive.

A socialização faz com que o individuo vá se abrindo para o mundo exterior, assumindo o mundo objetivo. O filme nos ensina que Kaspar Hauser vai assumindo lentamente a realidade social como sendo a sua própria realidade. Podemos então perceber como o filme foi sendo construído desde as primeiras cenas em que não mostra reação alguma no momento em que o homem de preto entra no porão o manipula inclusive violentamente e ele não reage. Pode-se pensar sua postura a partir de uma provocação trazida pela cena da vaca amarrada em uma árvore mostrada no momento em que Kaspar está estático com um bilhete e um chapéu na mão na praça da cidade de Nuremberg.

Vê-se neste momento que um animal não-racional como a vaca se movimenta mesmo que em círculos, uma vez que ela está presa à árvore, enquanto Kaspar, animal humano se mantém estático. Cena que mostra claramente uma divisão entre ser biológico e ser social. Lembrando que o animal desenvolve por natureza sem necessidade da sociedade, mas o homem sem a sociedade não consegue desenvolver nem mesmo o natural.

Outra cena bastante importante é a cena do jantar com a primeira família que o acolhe. Como não foi socializado a nada que não fosse pão e agua, uma sopa lhe pareceu insuportável a seu paladar, cuspindo à mesa. Na mesma família o menino o ensina o que é braço, mão, cotovelo enquanto a menina numa clara reprodução das estruturas heteronormativas o ensina as boas maneiras a partir de versos que a mesma aprendeu em sua socialização: “tome o leite bem quentinho e vá dormir no seu bercinho”. A força da socialização e lógica das estruturas estruturantes pode ser percebida na cena em que Kaspar tenta ensinar o gatinho a comer com as 2 mãos e andar com 2 patas.

Quando a mulher diz: não tenha vergonha!, no momento em que dá banho em Kasper, juntamente com a cena em que o homem tenta assustá-lo com a espada e cena do fogo em que queima o dedo por tocá-lo, percebe-se nitidamente uma ausência de medo, vergonha e choro por serem construções sociais. Na cena do fogo houve lágrimas, de dor, mas não houve neste momento, choro. Este vai aparecer depois de passar por um processo de socialização quando pisoteiam o nome dele plantado com espinafre. Ele diz que chorou muito!

O filme traz uma enorme possibilidade de discussão sobre a forma como a sociedade trata o diferente e não socializado por ela a partir de como o circo usava essas pessoas como atração, como enigmas da Europa. O anão era um enigma pela sua diferença física; o índio pela diferença étnica e cultural; o jovem Mozart, por ser aparentemente altista; e por fim Kaspar Hauser, por não ter sido socializado.

É importante lembrar que o espetáculo inicia-se com o urso com focinheira. Na seqüência do animal não-racional entra o animal racional que não é aceito pela sociedade. Cabe ressaltar que para que o animal não-racional se comporte de acordo com os interesses dos homens, ele deve ser amarrado (o próprio biológico). Ao contrário dos homens como Kaspar que fica estático dentro de uma cordinha muito representativa (exposição).

Kaspar Houser é assassinado no segundo atentado a que sofreu. No primeiro ataque ele vai para o porão e diz que a cama é o único lugar bom e que sua aparição no mundo foi uma queda dura.

A explicação do Enigma por uma sociedade que é excludente com o diferente que não consegue socializar, na medida em que é também não includente com o que chega como Kaspar, pode ser percebida pela explicação pelo burocrata: “a melhor explicação”; “deformidades”! Tentativa de explicação biológica para causa social. Apazigua as inquietações e mantém a lógica ortodoxa que mantém as estruturas em funcionamento. Kaspar Hauser nos ensina a pensar a sociedade e pensar a nós como sujeitos construídos por ela! Eis o desafio que Herzog nos traz!